Por que Jesus é “um deus” e não “Deus”? (Parte 1 – João 10:31-36)

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 Por que Jesus é “um deus” e não “Deus”?

            As testemunhas de Jeová são muito criticadas pela TNM (Tradução do Novo Mundo) verter João 1:1 por “a palavra era um deus”, visto que a vasta maioria das traduções da bíblia verte a “palavra era Deus”. É um fato que as duas traduções são gramaticalmente possíveis. A grande controvérsia não está na gramática, mas na teologia.

            Vejamos da boca do próprio Jesus: será que ele é alegou ser Deus, ou um deus?

            Para isso, vamos analisar um argumento que, embora frequentemente usado por nós, é em geral ignorado pela maioria das pessoas que pensam que Jesus é o Deus Supremo. Na maioria das vezes, ou as pessoas não entendem o argumento, ou fingem não o entender. Por isso, é hora de simplificar.

            Vejamos o relato de João 10:31-36:

 

(João 10:31-36)
 31 Mais uma vez, os judeus apanharam pedras para apedrejá-lo. 32 Então Jesus lhes disse: “Eu lhes mostrei muitas boas obras da parte do Pai. Por qual dessas obras vocês vão me apedrejar?” 33 Os judeus lhe responderam: “Nós não vamos apedrejá-lo por uma boa obra, mas por blasfêmia; pois você, embora seja um homem, se faz Θεός.”

            Que pode ser traduzida tanto “Deus” quanto “um deus”. Perceba que os judeus acusaram Jesus de algo bem interessante. Mas como saber se a acusação foi “Deus” – como vertido na maioria das bíblias – ou “um deus” como verte a TNM? Por dois motivos bastante simples:

A) Pela antítese contextual;

B) Pela resposta de Jesus;

A) ANTÍTESE CONTEXTUAL:

            Isso ocorre quando duas ideias opostas são apresentadas. Assim, pela primeira ideia proposta, podemos saber a segunda se entendermos que esta será o oposto da primeira. Por exemplo, veja essa explicação no livro raciocínios que ilustrará o que é uma Antítese Contextual:

 

1 Ped. 3:18: “Cristo morreu uma vez para sempre quanto aos pecados, um justo pelos injustos, a fim de conduzir-vos a Deus, sendo morto na carne, mas vivificado no espírito [“pelo Espírito”, Al; “no espírito”, IBB, BJ, PIB].” (Ao ser ressuscitado dentre os mortos, Jesus foi produzido com um corpo espiritual. No texto grego, as palavras “carne” e “espírito” são usadas para contrastar uma da outra e ambas estão no dativo; portanto, se um tradutor verter “pelo espírito”, deverá também coerentemente dizer “pela carne”, ou, se disser “na carne”, deverá também dizer “no espírito”.) (Livro Raciocínios à Base das Escrituras p. 324 par. 2 – Publicados pelas Testemunhas de Jeová – [os grifos são meus])

           Dessa forma, uma antítese contextual pode ser perfeitamente entendida e inferida se tivermos 50% da declaração. Se lermos que Jesus foi morto “na carne” e tal declaração forma uma antítese com a declaração posterior, então o texto terá de dizer que ele foi “vivificado no espírito”. Somente assim a antítese contextual é exata.

Assim também, qual é a antítese contextual apresentada na acusação dos judeus? Leia de novo:

 

(João 10:33) “… pois você, embora seja um homem, se faz…”

           Qual fraseologia você acha que forma uma antítese com “um homem”?

  1. ( x ) “um deus”;
  2. (    ) “o Deus” (ou Deus);

 

           Assim, se os judeus acusaram Jesus de alegar ser o Deus Supremo, não faz sentido que eles o tenham acusado de ser “um homem”, isto é “um humano”.

           Outra antítese contextual possível poderia ser:

(João 10:33) “… pois você, embora seja homem [i.e. humano], se faz deus [i.e. divino]…”

B) A RESPOSTA DE JESUS:

             Se Jesus responder falando de “Deus”, isto é, Jeová, então os judeus o acusaram de alegar ser “Deus”, ou seja, Jeová. No entanto, se Jesus responder citando outros chamados “deuses” que não são Jeová, isto é, deuses ontologicamente distintos de Jeová, então a acusação foi “um deus”.

              Prossigamos com o texto:

33 Os judeus lhe responderam: “Nós não vamos apedrejá-lo por uma boa obra, mas por blasfêmia; pois você, embora seja um homem, se faz Θεός.” 34 Jesus lhes respondeu: “Não está escrito na sua Lei: ‘Eu disse: “Vocês são deuses”’? 35 Se aqueles contra quem se dirigiu a palavra de Deus foram chamados de ‘deuses’ — e as Escrituras não podem ser anuladas —, 36 vocês dizem a mim, a quem o Pai santificou e enviou ao mundo: ‘Você blasfema’, porque eu disse: ‘Sou Filho de Deus’?

            Então veja só: será que Jesus responde a acusação dos judeus citando algum texto onde Jeová era chamado de Deus? Não. Jesus cita um texto onde outros seres ontologicamente distintos de Deus, representantes de Jeová Deus, são chamados de deuses. Bom, dessa forma os judeus não poderiam em nenhuma hipótese ter acusado Jesus de alegar ser Jeová Deus, mas eles o acusaram de alegar ser “um deus”. Vamos entender isso melhor com uma ilustração.

            Imagine que um sujeito chamado Francisco perdeu o pai na morte. Então um advogado vem até Francisco falar a ele sobre a herança deixada por seu pai. O advogado pergunta ao Francisco:

             – Você tem irmãos? Pois você deve dividir a herança igualmente entre seus irmãos.

            Então Francisco responde:

– Não tenho irmãos, sou filho único.

            Ao ouvir isso, um amigo de Francisco protesta:

            – Como assim “Não tenho irmãos”? Eu sou teu irmão, pois tanto você quanto eu cremos em Jesus Cristo.

            Qual é a questão aqui? Quando o advogado perguntou se Francisco tinha “irmãos”, ele se referia a irmãos carnais. Mas quando o amigo de Francisco alegou ser irmão de Francisco, ele se referiu a irmão espiritual ou de fé. Será que o argumento do amigo de Francisco possui algum valor? Será que o advogado vai aceitar a proposta do amigo de Francisco? É óbvio que não. Tal argumento só teria valor real se a palavra “irmão” fosse usada no mesmo sentido da pergunta.

            Veja outra ilustração:

            Em uma sala de aula da 3 série do ensino fundamental, a turma tem um único professor, de nome Raimundo. Certo dia, o professor Raimundo declara: “Se vocês ajudarem o coleguinha que tem dificuldade, vocês também são professores!”.

            Outro dia, os coleguinhas do jovem Francisco o acusam de alegar ser o professor próprio Raimundo. Então, Francisco cita as palavras do professor Raimundo e diz: “Mas o professor Raimundo disse que todos nós somos professores!”.

            Será que a declaração de Francisco responde a acusação de seus coleguinhas? Não. Pois eles o haviam acusado de alegar ser o próprio professor Raimundo, não um professor distinto do professor Raimundo. Dessa forma, a resposta de Francisco só faz sentido se seus coleguinhas o acusaram de alegar ser um professor, não o próprio professor Raimundo.

            Nessa ilustração há uma discrepância entre acusação e resposta. E tal discrepância invalida a resposta.

            Da mesma forma, se os judeus acusaram Jesus de blasfêmia por supostamente alegar ser Jeová Deus, qual é o valor da resposta de Jesus ao citar outros seres que não são Jeová como chamados de “deuses”? Jesus estaria, similarmente, argumentando igual ao Francisco mencionado na ilustração anterior. E se eu fosse um dos judeus que debatia com Jesus, eu teria dito: “Jesus, eu não estou te acusando de alegar ser um deus distinto de Jeová, eu estou te acusando de alegar ser Jeová Deus”. E aí Jesus teria perdido o argumento.

             Bem, então qual foi a essência desse debate entre Jesus e os judeus. É simples:

  1. Os judeus acusaram Jesus de blasfêmia por alegar ser “um deus”;

  2. Jesus cita o salmo 82:6, onde outros seres, que não são Jeová, são chamados de deuses.

  3. Assim Jesus mostra que não é blasfêmia que alguém alegue ser “um deus” distinto de Jeová, desde que tal pessoa tenha autoridade fornecida pelo próprio Jeová;

              E aí Jesus vence o debate de modo fantástico! Os judeus se calaram diante de Jesus. Podemos dizer que Jesus calou a boca daqueles que o acusaram.

               Só que agora, vem um ponto pungente na doutrina da trindade, e é esse o argumento que nós fazemos:

Premissa 1: Os judeus acusaram Jesus de blasfêmia por alegar ser “um deus”;

Premissa 2: Jesus cita o salmo 82:6;

Premissa 3: Esse salmo mostra que outros seres ontologicamente distintos de Jeová, são chamados de “deuses”;

Premissa 4: Jesus mostra que se seres ontologicamente distintos de Jeová são chamados de deuses, então não é blasfêmia que Jesus alegue ser “um deus”;

Premissa 5: Assim Jesus prova que ele não blasfemava por alegar ser um deus ontologicamente distinto de Jeová;

Premissa 6: Desse modo, Jesus alega ser um deus ontologicamente distinto de Jeová;

Premissa 7: Se Jesus alega ser um deus, então ele é um deus ontologicamente distinto de Jeová.

            A grande dúvida nesse argumento está na premissa 1. Pois essa premissa é a cabeça do argumento. É nessa premissa que está a grande dúvida. No entanto, a partir da premissa 2 todas as outras premissas simplesmente seguem logicamente. Assim, todas as contestações estão na premissa 1.

            No entanto, o grande problema para os trinitários é o seguinte:

  • Mesmo que Jesus tenha sido acusado de alegar ser O Deus Supremo, isso não altera em nada o fato de que a resposta de Jesus foi citar outros que, embora chamados de “deuses”, não são o “Deus”. E é nesta categoria que Jesus se defende. A mera ideia de alegar que o Deus Supremo se justificaria como “Deus” citando exemplos de outros que não são Ele como sendo chamados de “deuses” é patética. A única diferença nesta possibilidade seria que Jesus teria fugido do assunto, mas ainda assim, Jesus se defendeu como “um deus” e não como “Deus”.

  • A premissa 2 só faz sentido se a premissa 1 está correta. E a premissa 2 é indiscutível. Ela é absoluta. E sendo absoluta e indiscutível, a primeira também é. E se a primeira e a segunda são verdadeiras, todas as outras premissas também são. E se todas elas são verdadeiras, a conclusão também é.

                Nós ouvimos muitas tentativas de refutação a esse argumento, mas todas elas, sem exceções, mostram claramente que: ou as pessoas não entenderam o argumento, ou elas fingem que não entenderam. 100% das respostas que eu obtive de trinitários a este argumento, na verdade, somente o tornam mais poderoso. Algumas tentativas são tão ruins que jamais poderiam ser previstas por nós. Vejam algumas delas:

  • “Isso é politeísmo!”.

Quem alega isso não tem a menor noção do que fala. Pois, se assim for, Jesus era politeísta. Nós estamos apenas citando as palavras de Jesus. Você pode chamar isso de Politeísmo, Henoteísmo, ou qualquer outro “ismo”. Não interessa. O que realmente interessa é: isso é verdade, pois é o que a bíblia diz.

                   Leandro Quadros, tele-evangelista da Igreja Adventista do Sétimo Dia, argumentou que ‘Jesus não poderia estar se comparando a tais deuses, pois aqueles deuses eram corruptos’. Tal pessoa perdeu a oportunidade de ficar quieta. Ele conseguiu não ficar em silêncio e ao mesmo tempo não dizer nada. Essa declaração não agrega absolutamente nada no ponto em questão. É uma informação absolutamente inútil, assim como a teologia daqueles que aceitaram tal declaração.

                    Outra tentativa desesperada é de que ‘os deuses do Salmo 82 não são deuses, mas juízes‘. Mais uma vez: isso somente reforça mais ainda o argumento de que Jesus não é Deus. Pois, se Jesus fosse Deus, por que ele, ao ser acusado de ser quem ele é, citaria seres que não são Deuses, para justificar sua deidade? Seria como o Clark Kent citar o Batman (que não tem superpoderes) para alegar ser o próprio Super-Man – totalmente desconexo.

                   Assim, fica claro que Jesus é “um deus” separado de Jeová, pois foi esta a declaração de Jesus.

 

3 Comentários

  1. logica resolve essa incógnita pra mim, por favor.

    Em João 19:7 os judeus acusaram Jesus de blasfêmia por se dizer “filho de DEUS” COM D maiúsculo, ou seja, filho de Jeová e quando Jesus disse ”EU E O PAI SOMOS UM” em João 10:30 Jesus foi acusado de blasfêmia por se igualar a “um deus” segundo a sua bíblia, levando a conclusão absurda que quem era o pai de Jesus segundo a tradução do novo mundo era “um deus” menos JEOVÁ. AÍ que entra o grande problema meu amigo que eu quero que você me resolva. Quem os judeus pensavam que era o pai de Jesus? Os dois versículos não se encacham logica, como vocês dizem ser o único canal exclusivo entre DEUS e a humanidade, e tudo que vem de vocês são “verdades absoluta”, resolve essa minha curiosidade porque as bíblias da cristandade que vocês julgam ser da babilônia, traduz João 10:33 “DEUS” com D maiúsculo,em total harmonia com João 19:7

  2. Estava pensando aqui e cheguei a seguinte conclusão, para que o argumento do lógica tivesse mais um pouco de sentido o certo seria a tradução Deus com D maiúsculo em João 10:33 porque a resposta de Jesus foi uma resposta negativa não afirmativa, Jesus rebateu a acusação que os judeus fizeram ,ele não concordou com os judeus ,como você crê que quando Jesus citou salmos 82:6 ele estava afirmando que tipo de deus ele era e dizendo que ele era “um deus” e não o Deus Todo Poderoso, então a tradução Deus com D maiúsculo em João 10:33 faria mais sentido ao argumento do lógica e isso entraria em harmonia com a outra tradução deturpada da tradução do novo mundo em filipenses cap.2:6 onde fala que Jesus considerou uma usurpação ser igual a Deus ,Tudo isso em virtude da resposta negativa que Jesus deu a acusação dos judeus ,isso teria mais sentido, mais mesmo assim deixaria muitas perguntas sem respostas .como a tradução da tnm não ajudou ele e traduziu João 10:33 por “deus” com d minúsculo ele meteu goela abaixo na cabeça dos seus leitores porque ele sabe que as tj nunca questiona nada que venha deles próprios ,mais uma boa analisada nos versículos fica comprovado que esse argumento é totalmente fantasioso ,sem nenhum nexo.

    • VOCÊ DISSE:
      “a tradução Deus com D maiúsculo em João 10:33 faria mais sentido ao argumento do lógica”

      REFUTAÇÃO:
      Se Jesus foi acusado dela alegar ser Deus, isto é, YHWH, qual a lógica de ele responder citando outros seres, que NÃO SÃO YHWH, a fim de se defender como “Deus/deus”? Não faz sentido.

      Pela milésima vez: Entenda o argumento!

      Leia novamente a parte da ilustração do professor Raimundo. Se Jesus foi acusado de alegar ser “Deus”, citar deuses que não são Aquele que ele fora acusado de alegar ser é uma fuga do assunto.

      Se o Clark Kent fosse acusado de alegar ser o Super-Homem, por que o Clark Kent citaria o Batman, que não tem super-poderes, para se justificar? Não faz sentido. Eu já te expliquei isso.

      VOCÊ DISSE:
      “como a tradução da tnm não ajudou ele e traduziu João 10:33 por ‘deus’ com d minúsculo ele meteu goela abaixo na cabeça dos seus leitores porque ele sabe que as tj nunca questiona nada que venha deles próprios”

      RESPOSTA:
      Não é a TNM que traduz assim, existem várias bíblias que assim o fazem, pois alguns tradutores percebem que pela resposta de Jesus, a acusação tem que ter sido “um deus”. Alguns exemplos são:

      – The Emphatic Diaglott de Benjamin Wilson;
      – The New English Bible;

      Informe-se mais antes de vir debater comigo. E por que você mudou de assunto, conduzindo a questão para as TJs? Você percebeu que não tem o que argumentar e passa a atacar as pessoas e não mais o argumento?
      Sinceramente, desejo felicidades e que entenda, por fim, o argumento.

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