(João 1:1) “No princípio era […]” – quando e o quê?

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(João 1:1) “No princípio era […]” – quando e o quê?

             Analisando os léxicos na minha biblioteca (todos eles feitos por trinitários), percebi que todos os autores são unânimes em defender que a declaração inspirada “No princípio era a Palavra”, no prólogo de João, refere-se a uma suposta eternidade do Logos. Neste artigo, mostrarei que isso é falso.

“No princípio” – ἐν ἀρχῇ – (en arche)

             Em nenhum momento a expressão “No princípio” indica eternidade. Ao contrário, isso indica um período de tempo ou um ponto no tempo. O Salmo 90:2 diz que Jeová é Deus de “eternidade a eternidade”. A palavra grega para eternidade usada na Septuaginta não é arche, mas αἰών (aiōn).

            O apóstolo João não disse que o Logos estava com Deus na “eternidade”, mas no “princípio”. Dizer que a palavra “princípio” significa “eternidade” é dar a ela um sentido que não possui. Seria como dizer que “ontem” significa “desde sempre”. Portanto, agora surge a pergunta: se João tivesse tencionado dizer que o Logos é eterno, igual a Deus (biteísmo), por que cargas d’água ele não usou a palavra “eternidade”? É simples: o Logos nasce da sabedoria de Jeová. Assim como Eva gerou um filho, Jeová gerou o Logos. (Gênesis 4:1; compare com Provérbios 8:22. A mesma palavra é usada para produzir um filho). Onde estava o filho de Adão e Eva antes de nascer? Ora, estava dentro de Adão e Eva, apenas não existia em realidade. Da mesma forma, o Logos estava eternamente dentro de Jeová, apenas não existia em realidade. O Logos precisou de um ato, uma causa, para que pudesse existir em realidade. (João 6:57) Mas assim como o filho de Eva não é o mesmo ser que Eva, o Filho de Jeová não é o mesmo ser que Jeová.

            Assim, o Logos existe em realidade desde o “princípio”, não desde a “eternidade”.

 

“ERA” – ἦν – (ēn)

          Muitos teólogos argumentam que o verbo “era” (no imperfeito) indicaria que o Logos já existia antes do “princípio”. É digno de nota que algumas traduções acrescentam a palavra “já”, vertendo João 1:1 da seguinte forma: “No princípio a palavra já existia […]”. No entanto, o uso da palavra “já” não aponta necessariamente para a uma suposta eternidade do Logos. A palavra “princípio” em João 1:1 não se refere ao primeiro ato ou movimento de Deus. O autor não disse: “Quando o princípio começou o Logos já existia”; mas “No princípio”. Segundo Daniel B. Wallace (1996), o

 

“imperfeito é frequentemente usado para enfatizar o início de uma ação, com a implicação de que continuou por algum tempo.” (Greek Grammar Beyond the Basics [Gramática Grega Além do Básico], p.544 em inglês).

             Dessa forma, o verbo “era” indica que o Logos existia durante um tempo decorrente chamado “No princípio” – apenas isso. Se a forma verbal imperfeita indicasse eternidade, então Satanás seria também eterno, pois Jesus disse que Satanás “era (ἦν – imperfeito) um assassino desde o princípio”. (João 8:44; King James Version em Inglês)

           João deixou bem claro que o Logos não é eterno, mas que ele “[…] existe desde o princípio.” (1 João 2:14) Eu não estou ciente de nenhum comentarista bíblico que defenda que tal frase não se aplique a Jesus. João também disse que o Logos é “o princípio da criação de Deus”. (Apocalipse 3:14) A palavra “arche“, quando aplicada a uma pessoa, significa o primeiro em ordem ou status, um maioral. Assim, Jesus é “o primeiro [o principal] da criação de Deus” – a primeira e/ou a maior criação de Deus.

           Portanto, fica acima de dúvidas que João 1:1 aponta para o Logos como existindo “No princípio”, não na eternidade, e que o verbo “era”, no imperfeito, tampouco aponta para o destino tencionado pelos trinitários. Dizer que João 1:1 indica a eternidade do Logos é dar às palavras analisadas um sentido que não possuem.

 

 

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