João 1:3 indica que o Logos não teve princípio?

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IMAGEM ILUSTRATIVA DO LOGOS

João 1:3 indica que o Logos não teve princípio?

          Certo leitor questionou:

            “É impossível que Jesus seja uma criatura, pois João 1:3 diz:
(João 1:3) ‘Todas as coisas vieram a existir por meio dele, e sem ele nem mesmo uma só coisa veio a existir.’ – (TNM).
         Ou, como lemos na Almeida Atualizada:
“Todas as coisas foram feitas por intermédio dele, e, sem ele, nada do que foi feito se fez.” (ARA).
         Portanto, se ‘nada’, nem mesmo ‘uma só coisa’, ‘veio a existir’ “sem ele” (i.e. o Logos), então o Logos não é criado. E se ele não é criado, ele é o Deus, o Criador. Responda isso!”

          Certo tele-evangelista da Igreja Adventista também usou esse argumento. Fizemos um pequeno recorte:

 

           Esquadrinhemos a fundo este argumento. Em primeiro lugar, vejamos o texto grego de João 1:3, com sua transliteração e tradução literal:

           Vamos enumerar os pontos de análise para facilitar o entendimento:

PONTO 1: “khoris autou” – “SEM ELE”

           Foquemos a nossa atenção primeiramente na expressão khoris autou, que significa “à parte dele”. Tal expressão pode ser traduzida basicamente por “separado”, ou também por “além de”, segundo Thayer’s Greek Definition. Vejamos alguns exemplos que nos ajudarão a entender a função dessa palavra:

A. (Mateus 14:21) “Ora, os que comeram foram cerca de 5.000 homens, além de mulheres e crianças.” (Veja também Mateus 15:38).

          O que tal palavra significa nesse contexto? O termo traduzido por “além de” significa “sem contar”, “à parte de”, “não mencionando”. É semelhante a você dizer: “Sem contar a mim mesmo, todos os que estão presentes nesta festa foram convidados por mim”.

B. (2 Coríntios 11:28)Além dessas coisas exteriores, há o que diariamente pesa sobre mim: a ansiedade por todas as congregações.”

          Exemplo similar ao anterior.

C. (Romanos 4:6) “[…] Davi também fala da felicidade do homem a quem Deus credita justiça independentemente de obras.” 

          A palavra khoris foi traduzida aqui por “independentemente”, ou seja, por outro caminho que não o das obras.

D. (João 15:5) “Eu sou a videira; vocês são os ramos. Quem permanece em união comigo, e eu em união com ele, esse dá muito fruto, pois separados de mim vocês não podem fazer nada.”

           Este exemplo segue a mesma lógica do anterior: “por outro caminho”.

E. O verbo khorizo, relacionado à preposição khoris, significa “pôr à parte, separar”, segundo W. E. Vine), e é assim traduzida em Mateus 19:6 e Marcos 10:9.

           Assim sendo, neste primeiro ponto vemos que a palavra khoris, traduzida em João 1:3 por “sem ele”, indica também “à parte dele”, “por outro caminho”, “separado dele”, “além dele”. De modo que a ideia é: “Sem o logos [separado dele, além dele] nada do que foi feito se fez”, isto é, nem mesmo uma só coisa veio a existir por intermédio de outro que não o Logos. Obviamente, a criação do Logos não foi um ato à parte dele, separado dele, pois envolveu-o. Isso por si só derruba o argumento trinitário.

           Richard Dawkins, famoso ateu “pop” (não sabe diferenciar o próprio nariz do umbigo), tentou fazer uma refutação grosseira ao argumento ontológico (link) que se assemelha ao argumento trinitário com respeito a João 1:3. Em suma, Dawkins argumentou que ‘um Deus que não existe, e que ainda assim fosse capaz de criar o mundo, seria maior que um Deus que existe e que criou o mundo. Dessa forma, para que Deus fosse o Ser de Máxima Grandeza, Deus teria que não existir e criar tudo, e que, portanto, Deus não existe’. Mas obviamente, tal hipótese é absurda! Nenhum filósofo sério jamais daria algum crédito a tal hipótese. O argumento trinitário sobre João 1:3 segue o mesmo princípio absurdo:

Como poderia o Logos ser dito como tendo sido criado por intermédio de si mesmo, sendo que precisaria existir de antemão para ser o seu próprio mediador?

           Portanto, é óbvio que o texto de João não poderia sob qualquer hipótese mencionar a criação do Logos por intermédio do Logos – a mera ideia disso é risível.

UMA QUESTÃO INTERESSANTE

            Além do que foi dito, surge uma questão bem interessante no uso deste termo:

Por que é que João diria “sem ele” se o Logos fosse o Deus eterno?

           A expressão “sem ele” é um indicativo bem curioso de contingência (criaturas). Se o Logos fosse o Deus eterno, por que cargas d’água João acrescentaria a observação “sem ele”? Ora, se o Logos fosse Deus, não seria isso óbvio? Até onde consigo ver, a expressão “sem ele” indica claramente que Deus esteve “sem ele”. Se Deus esteve eternamente “com ele”, que necessidade há de dizer que “sem ele, nada do que foi feito se fez”?

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           Para ilustrar: Imagine que você diga sobre sua esposa: “sem ela, nada nesta casa foi comprado”, ou ainda “sem ela, nada do que eu tenho na vida foi conquistado”. Ora, por que você diria “sem ela” se você sempre tivesse estado “com ela”? Justamente, a expressão “sem ele” indica que Deus esteve sozinho – e que nada do que foi feito se fez enquanto Deus estava sozinho, isto é, ‘sem o Logos’.

PONTO 2: “panta” – “TODAS [AS COISAS]”.

              Essa palavra é bem curiosa, pois em muitos casos, ela é limitada a um grupo ao qual se refere e não tem abrangência máxima. É óbvio que o “tudo” (panta) em João 1:3 não é absoluto, pois até mesmo trinitários concordarão que o Pai não está incluído na abrangência do termo, isto é, que o Pai não veio a existir por meio do Logos.

              Vejamos alguns exemplos bíblicos:

  1. (Filipenses 2:20, 21) “Pois não tenho a nenhum outro de disposição igual à dele [i.e., Timóteo], […] Pois todos os outros estão buscando os seus próprios interesses.”

          Note que a expressão “os outros” não existe no texto grego. Mas a palavra “todos” obviamente exclui Paulo, Timóteo, e alguns outros cristãos fiéis, os quais Paulo obviamente não tinha em mente quando mencionou “todos”.

2. (Lucas 13:2) “Ele lhes disse em resposta: “Vocês acham que esses galileus eram mais pecadores do que todos os outros galileus, porque sofreram essas coisas?

         Também aqui a ideia de “os outros” está logicamente implícita no texto grego.

3. (Mateus 26:33) “Pedro lhe disse em resposta: “Ainda que todos os outros tropecem no que diz respeito ao senhor, eu nunca tropeçarei!”

          A expressão “os outros” não aparece no texto em grego, mas obviamente, Pedro não se incluiu na abrangência da expressão “todos”.

4. (Lucas 21:29) “[…] Reparem na figueira e em todas as outras árvores.”

          Mais uma vez, a palavra “as outras” não existe no texto grego. No entanto, é óbvio que a “figueira” não está inclusa em “todas”, pois Jesus havia acabado de mencionar a “figueira”.

5. (Marcos 4:13) “[…] Vocês não compreendem essa ilustração; portanto, como entenderão todas as outras ilustrações?”.

          Novamente, a palavra “outras” é acrescentada, pois “todas as ilustrações” não está abrangendo “essa ilustração”. (Veja também Marcos 4:31, 32).

   6. Que as diversas declinações de pas (tudo, todos, etc) não são sempre absolutas fica provado além de qualquer dúvida quando comparamos Salmo 8:6 e Hebreus 2:8 com 1 Coríntios 15:27. Perceba:

  •             (Salmo 8:6) “Deste-lhe domínio sobre as obras das tuas mãos; Puseste tudo [Septuaginta: panta] debaixo dos seus pés”;
  •             (Hebreus 2:8) “’Tu lhe sujeitaste todas as coisas [grego: panta] debaixo dos pés.’ Ao lhe sujeitar todas as coisas, Deus não deixou nada que não ficasse sujeito a ele. Agora, porém, ainda não vemos todas as coisas sujeitas a ele.”;
  •             (1 Coríntios 15:27) “Pois Deus “lhe sujeitou todas as coisas [grego: panta] debaixo dos pés”. Mas, quando ele diz que ‘todas as coisas foram sujeitas’, é claro que isso não inclui Aquele que lhe sujeitou todas as coisas.”

            Assim, valendo-nos das palavras inspiradas do apóstolo Paulo, quando João 1:3 afirma que tudo (ou todas as coisas) foi criado por intermédio do Logos (e que, sem ele, nada do que foi feito se fez), é claro, é evidente, é óbvio que isso não inclui nem o Pai (que criou por meio dele) nem o próprio Logos. Acontece que a Bíblia confia na inteligência do leitor para perceber essa exclusão lógica. A inteligência de alguns, infelizmente, não faz jus a tal confiança.

            O foco do prólogo de João é o Logos, não o Pai. Dessa forma, João não está falando da criação do Logos, mas de seu papel no mundo (Veja João 1:10). Por isso, todas as declarações de João são referentes ao Logos, a partir do momento em que ele já existia, isto é, seu “princípio”. (João 1:1).

            Claramente, a ideia é: “Todas [as outras coisas] foram criadas por meio dele, e sem ele, nem mesmo uma só [de tais] coisa[s] veio a existir”.

 

PONTO 3: “διά “POR INTERMÉDIO” ou “ATRAVÉS”.

              Aqui nós claramente vemos um problema seriíssimo para a trindade: é impossível conciliar isso com a crença de o Logos ser Deus. Sabe por quê? Porque a preposição grega diá indica o “canal de um ato”, “através de”, conforme a definição de Strong. Assim, Bíblias que traduzem João 1:3 como “todas as coisas foram feitas por intermédio dele(como Almeida Atualizada e Almeida século 21) ou “foram feitas por meio dele” (como a Bíblia de Jerusalém) são menos ambíguas do que as que dizem “todas as coisas foram feitas por ele” (como a Almeida Corrigida), pois estas últimas deixam de transmitir o pleno sentido da preposição grega: de que o Logos foi o Agente Intermediário, e não o Autor, da Criação divina. (OBS: A preposição “por” pode indicar tanto a causa quanto o meio até mesmo em português. Para saber mais, clique aqui).

 POSSÍVEL OBJEÇÃO

            Alguns tentam negar essa clara verdade bíblica por dizer que a mesma preposição grega é usada para o Pai, Jeová, e isso não torna o Pai um agente intermediário. Normalmente citam Romanos 11:36 e Hebreus 2:10. Os que assim argumentam equivocam-se, pois confundem dois significados da palavra “diá”, que significa primariamente “por meio de” (quer dizer, “o agente indireto ou meio”, segundo W. C. Taylor), mas possui, como definição secundária, “por causa de” (sobretudo com o caso acusativo, mas por vezes também com o genitivo, segundo o Léxico Grego-Português de Gingrich e Danker. Veja exemplos em Mateus 10:22, 27:18).

Para ilustrar, imagine as seguintes declarações:

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POR – ATRAVÉS – POR MEIO

1) “Eu vim a Florianópolis por Porto Alegre”; (Observe a imagem)

 

 

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BANDEIRA DE PORTO ALEGRE

2) “Estou concorrendo por Porto Alegre”;

         Note que na frase 1 a proposição por transmite a ideia de meio, ao passo que na frase 2 transmite a ideia de uma origem. O mesmo ocorre com a preposição diá. Ela pode se referir tanto a um meio quanto a uma origem (a partir de).

         Uma vez que a Bíblia jamais identifica Jesus (Logos) como o Criador, ou a fonte da criação, “diá” aplicado a ele só pode significar “por meio dele”; enquanto que, quando aplicado ao Pai (Jeová), identificado explicitamente na Bíblia como o Criador, a mesma preposição forçosamente transmite a ideia de causa, sendo o Pai a Causa da criação. O próprio Jesus disse que o agente ativo da criação é outro, isto é, o Pai.

(Mateus 19:4) “[…] aquele que os criou [i.e. o Pai] no princípio os fez homem e mulher.”

 

         Em outras palavras, o inteiro contexto bíblico indica inequivocamente que (tratando-se da criação) quando a preposição “diá” é aplicada ao Filho, significa “por intermédio dele”; e quando é aplicada ao Pai, significa “por causa dele”.

          O próprio apóstolo Paulo torna isso muito claro quando contrasta o papel do Pai e do Filho, em 1 Coríntios 8:6. Este texto é decisivo:

“para nós há realmente um só Deus, o Pai, de [grego: ex] quem procedem todas as coisas, e nós existimos para ele; e há um só Senhor, Jesus Cristo, por meio de [grego: diá] quem são todas as coisas, e nós existimos por meio dele.”

            Aqui notamos o seguinte:

            Ao falar do papel do Pai, a Bíblia usa a preposição “ex” ou “ek” identificando-o como aquele “de quem tudo procede”. A preposição “ek”, segundo Vine, significa a “origem, fonte, causa”, isto é, “a origem da qual algo é feito”. Baseado nesse testemunho bíblico, nos textos em que “diá” se refere ao Pai, tal preposição torna-se praticamente sinônima de “ek”, apontando o Pai como a causa da criação. Por outro lado, a Palavra de Deus jamais se refere ao Filho como aquele “de quem” (ἐξ οὗ) todas as coisas vieram ou procedem. Logo, no caso do Filho, o Logos, “diá” só pode reter seu significado primário de “por intermédio dele”.

        Voltando a João 1:3, com base no que analisamos, a estrutura do texto grego indica duas coisas:

Primeiro: Que o Logos é o intermediário;

Segundo: Que o Logos é o agente passivo, não ativo;

            O Logos é o agente intermediário porque ele não foi a fonte da criação, mas o agente da criação. Vemos um exemplo entre fonte e agente neste mesmo capítulo:

(João 1:17) “Porque a Lei foi dada por meio de Moisés; a bondade imerecida e a verdade vieram a existir por meio de Jesus Cristo.”

            Assim como Moisés não era a fonte, ou a origem, da lei dada a Israel, Jesus não é a fonte da criação. Em suma: Deus disse a Moisés o que fazer e este o fez; Deus disse ao Logos o que fazer e este o fez.

            O Logos é o agente passivo porque o texto não diz que o Logos “criou todas as coisas”, mas que “todas as coisas foram criadas através dele”. Tal fraseologia é repetida em Colossenses 1:16:

            (Colossenses 1:16) “[…] Todas as outras coisas foram criadas por meio dele e para ele.”

            Em ambos os casos, o Logos é apresentado como o agente passivo da criação. Mas agora surge a pergunta: Como pode Deus criar algo tendo a si próprio como intermediário? Isso é tão absurdo quanto dizer que um empresário contratou a si mesmo para ser seu próprio secretário, a fim de fazer um telefonema pessoalmente por intermédio de si próprio. Parece piada? Pois é isso que implica dizer que o Logos é mediador de si mesmo.

CONSIDERE TAMBÉM O SEGUINTE:

         É digno de nota que o “princípio” em João 1:1 pode referir-se ao início do tempo que inclui o princípio do Logos (sendo paralelo a Provérbios 8:22, que usa a mesma palavra grega, arkhe); mas pode igualmente referir-se ao “princípio” mencionado em Gênesis 1:1, o princípio dos céus e da Terra – do Universo material (muitos eruditos atrelam João 1:1 a Gênesis 1:1; veja também A Sentinela de 15 de setembro de 2005, p. 4). Sendo este último caso, a expressão “todas as coisas” seria uma referência ao Universo material, físico.

          João 1:10 explica sobre o Logos que o “mundo veio à existência por meio dele”; nesse texto “mundo” traduz o grego κόσμος, kosmos. Embora tal termo aqui se refira especialmente ao mundo da humanidade, não está excluída a ideia de Cosmos, Universo (veja a nota na Tradução do Novo Mundo, Edição de Estudo).

         Assim, sobre João 1:3, afirma o erudito Albert Barnes (destaques nossos):

“Todas as coisas” – O Universo. A expressão não pode ser limitada a qualquer parte do universo. Ela apropriadamente expressa tudo o que existe – todas as vastas massas de mundos materiais, e todos os animais e coisas, grandes e pequenas, que compõem esses mundos.” (Albert Barnes’ Notes on the Bible).

         Sendo assim, fica ainda mais simples entender João 1:3, pois a ideia poderia ser:

“Todas as coisas [no Universo, nos céus e Terra materiais] vieram a existir por meio dele, e sem ele nem mesmo uma só coisa [no Universo físico] veio a existir”.

UMA CRIATURA

            Para que não fique nenhuma dúvida que o Logos, o Filho, é deveras uma criatura, concluamos citando novamente o texto de Provérbios 8:22, no qual o Logos, falando como a Sabedoria personificada (e muitos estudiosos concordam que de fato assim o é; veja 1 Coríntios 1:24, 30), afirma:

“Jeová me produziu

como o princípio do seu caminho,

A primeira das suas

realizações mais antigas.”

         Comentando esse texto, uma nota na Edição Pastoral explica:

 

 

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